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domingo, 22 de setembro de 2013

E o símbolo de Curitiba vai desaparecendo...

Av. Pres. Kennedy, 1656 - foto do Google em 2011

Av. Pres. Kennedy, 1656 - foto do autor em 2013
Reparem nas duas fotos acima, pois elas falam por si mesmas. A primeira, obtida através do Google Street View, mostra duas três araucárias sadias, em uma esquina da Av. Presidente Kennedy, no bairro Água Verde, em Curitiba. A segunda, tirada neste ano, mostra as mesmas árvores totalmente secas. Poderia ser uma exceção, uma coincidência, mas não é. Este tipo de atitude tem acontecido por toda a cidade de Curitiba - cidade que possui a araucária estampada em seu brasão.

Com toda a certeza não é uma "doença" comum que vêm atingindo uma das árvores em maior perigo de extinção do Brasil. Esta doença chama-se "bicho-homem" e é notória a ignorância das pessoas em matar os últimos exemplares do único pinheiro brasileiro, o qual sustentou tantas gerações de paranaenses, catarinenses, gaúchos e paulistas com a venda de sua madeira, proveniente de desmatamentos indiscriminados que ameaçaram a belíssima conífera sul americana.

A prefeitura de Curitiba também tem se mostrado complacente com esta verdadeira tragédia que ocorre na cidade, pois não toma nenhuma providência - embora a araucária seja protegida por leis municipais e estaduais. Após a 'doença' atingir as árvores, as mesmas têm seus cortes criminosamente autorizados pelo Poder Público. E isso se repete em construções de prédios residenciais, concessionárias de veículos, etc.

É uma pena isso acontecer na antes denominada "capital ecológica". Nos anos 80 e 90 Curitiba ainda dava exemplos ao Brasil e ao mundo de como o desenvolvimento urbano podia conviver com as áreas verdes, com o meio ambiente preservado, enfim. Hoje os moradores da cidade atacam as árvores impunemente e a prefeitura corrobora tais ações inadmissíveis em tempos de mudanças climáticas tão graves. Será isso decorrente da falta de cultura do brasileiro em geral, da falta de educação que só aumenta entre a população? Falta educação ambiental, principalmente. Não sei explicar, porque não há razão para tanta destruição. É muito triste isso. Tirem suas próprias conclusões.

Aqui vão mais alguns endereços onde araucárias "sumiram" em Curitiba. Os nomes dos estabelecimentos não serão mencionados, para que o Google não pense que estou fazendo propaganda deles. Sugiro pesquisar na internet os locais para que vocês constatem os absurdos:

- Concessionária de veículos na Av. Presidente Kennedy, 3878 (Portão) -> três araucárias "sumiram" para dar lugar a espaço para exposição de um carro(!!) no jardim;
- Concessionária de veículos na Av. Mario Tourinho, 1212 (Campina de Siqueira) -> uma araucária na frente da loja primeiro "secou" (como a das fotos acima) e depois desapareceu, para dar lugar provavelmente a apenas um veículo;
- Concessionária de veículos na Rua Mateus Leme, 1875 (Centro Cívico) -> prefeitura autorizou a derrubada de várias araucárias centenárias para a construção da loja, alegando estarem "doentes"...
- Sede de importante órgão federal, na Rua Sandália Manzon, 210 no Bairro Santa Cândida -> diversas araucárias centenárias que ornavam o jardim do edifício "sumiram" - será que por tratar-se de órgão do governo eles também "podem tudo"? Ok, as concessionárias de veículos também podem, como notamos acima.
- Restaurante italiano na Avenida Silva Jardim, 2487 (Batel) - uma araucária localizada na parte de trás, no estacionamento do restaurante, está seca, denotando que isso foi feito propositalmente.
- Restaurante japonês na Rua Carneiro Lobo, 720, esquina com Av.Visconde de Guarapuava (Batel) - uma belíssima araucária no jardim do restaurante está secando aos poucos também. Ela era sadia antes da abertura deste estabelecimento.

Estes são os casos mais vistosos, mas existem centenas de outros, que relacionarei aqui para que vocês, leitores, acompanhem e denunciem também. Precisamos demonstrar que a população não é 100% conivente com essas práticas e que estamos notando os absurdos que acontecem nesta cidade, os quais não são muito diferentes dos que acontecem em outros lugares do Brasil. Com isso a "capital ecológica" vai, infelizmente, perdendo seu maior símbolo.

Para finalizar, coloco o brasão oficial de Curitiba e outro desenvolvido pelo movimento "Salvemos o Bosque da Casa Gomm" mais atualizado, de acordo com a realidade atual:

Brasão de Curitiba - oficial

Brasão de Curitiba adaptado à realidade atual das araucárias
Abaixo mais um capítulo deste verdadeiro massacre das araucárias, colaboração de nosso amigo Luiz Guilherme Todeschi. Aconteceu recentemente na Rua Francisco Screcim, 43, bairro Ahú, Curitiba, PR. Onde estas pessoas estão com a cabeça? Restam tão poucos exemplares...

Araucária cortada em residência na Rua Francisco Scremim, 43 - Ahú - Curitba, PR em 28/01/2014.
Para saber mais clique no link (é preciso ser cadastrado no Facebook).

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Morte de tipuana na Rua Guilherme Pugsley (Curitiba)

Hoje ocorreu o corte de uma linda árvore da espécie tipuana, imensa, próximo ao número 1269 da Rua Guilherme Pugsley, também conhecida como "via rápida Portão-Centro" (bairro Água Verde, em Curitiba, PR). A árvore estava visivelmente sadia, como muitas que injustamente são cortadas nesta cidade. 
Fiquei indignado e quando eu fui tirar algumas fotos, um funcionário da prefeitura (aparentando ser até menor de idade) começou a me insultar, fazendo gestos obscenos e gritando bem alto, de forma agressiva. Além de denotar desrespeito e um cidadão que paga seus impostos (e mantém seu salário), deu para perceber o quanto estes funcionários estão acuados, sabendo que o que fazem é errado e desaprovado por parte da população (principalmente nós, blogueiros defensores do meio ambiente). Mas o que mais se percebia na equipe era orgulho da destruição causada e a vontade de coibir quem se colocasse contra isso.
Vejam as fotos (a situação "antes" foi retirada do GoogleMaps e a "depois" eu fotografei hoje durante a execução dos serviços pela Prefeitura Municipal de Curitiba).


 Como era antes. Fonte: Google Maps
Destruição no Água Verde. Foto do autor (19/08/2013)

Já registrei na Central 156 uma reclamação, porém estou bastante desiludido com este serviço. Eles não tomam providências e nem mesmo nos respondem. Só nos resta a solidariedade dos colegas que defendem a natureza aqui na internet mesmo. Antes que alguns venham aqui me criticar, dizendo que "é só mais uma árvore cortada", reitero que a situação é grave e emblemática. Pode ser só uma, porém por toda Curitiba são milhares de árvores sacrificadas diariamente tanto pela população ignorante quanto pela própria prefeitura, que é cúmplice. Estas tipuanas demoraram muitas décadas para crescer e formar os verdadeiros "corredores verdes", como o presente nesta rua. Estes corredores além de darem conforto a motoristas e pedestres principalmente em dias de sol forte (que são comuns SIM em Curitiba desde a primavera até o outono, passando pelo verão), atraem centenas de papagaios, que só conseguem se abrigar nos galhos mais altos. Além disso, tais árvores filtram a poluição do trânsito intenso de veículos que as quatro faixas de rolamento da "via rápida" comportam 24 horas por dia. Se os galhos caem na rede elétrica? Poda técnica é possível e além disso esta rede elétrica já deveria ter sido enterrada há décadas, como é feito nos países desenvolvidos, onde as árvores envolvem as ruas e casas.
Toda árvore é importante. Inclusive esta, que foi morta injustamente.

domingo, 27 de junho de 2010

O fundamental cuidado com os Recursos Hídricos




Já passou da hora de cuidarmos melhor dos recursos hídricos de nosso Planeta.
Á água, bem fundamental à vida na Terra, que já fora considerada, num passado não muito distante, como bem livre e amplamente disponível, é cada vez mais considerada um bem escasso, raro, e que começa a ter valor econômico. Ela deveria, de fato, ser muito mais valorizada do que é atualmente, tanto pelas pessoas quanto por governos. Podemos entender a água como o "sangue da terra", sendo que seu estado demonstra a saúde de nosso planeta. E todos sabem que vivemos em um planeta doente.

Vamos a um rápido panorama da disponibilidade deste recurso essencial em nosso planeta. Sabe-se que o maior volume de água disponível(97,5%) está nos oceanos e mares e é salgada. A dessalinização da água do mar, é sabido, ainda é um processo caro e, por isso, geralmente inviável. Nas calotas polares e em regiões subterrâneas de difícil acesso encontramos outros 2,49% da água doce. Infelizmente a exploração dessas águas gera altos custos, não existindo, muitas vezes, tecnologias adequadas para tanto. Resta, então, pouca água que pode ser realmente utilizada para potabilidade: apenas 0,007% de água doce do planeta está presente em rios, lagos e na atmosfera, sendo de fácil acesso para a captação e consumo. Da água doce tecnicamente “disponível” para as pessoas usarem, apenas uma proporção minúscula (0,4%) é encontrada na superfície da Terra, em lagos, rios, zonas úmidas, no solo, na umidade do ar, em plantas e animais. O restante da água “disponível” (30,1%) está em aqüíferos e ainda sabemos muito pouco sobre esses recursos, por estarem em áreas de difícil acesso para estudo e exploração.

Através destes dados acima, conclui-se facilmente que um dos principais problemas concernentes à água é sua distribuição, além, é claro, de sua contaminação pelo homem. O pouco de água acessível para uso nós estamos poluindo. Tal poluição está intimamente ligada com a indisponibilidade do recurso. É isto que leva quase 1 bilhão de pessoas em diversas partes do mundo a estarem atualmente sem acesso à água em quantidade e/ou qualidade minimamente necessárias à sobrevivência. Da mesma forma que a distribuição dos alimentos é desigual entre os diversos povos da Terra, situação semelhante ocorre com a água.

O Brasil orgulha-se de ostentar o título de detentor de entre 12% e 18% da água doce mundial. No entanto, 72% desta água está na Amazônia, região distante dos grandes centros urbanos. Além disso, é preciso desmistificar estas afirmações sobre abundância, tão comuns por aqui. O brasileiro sempre foi levado a achar que temos infinitas matas, rios, etc. Mas este pensamento acabou com a mata-atlântica, da qual restam menos de 7% ainda em pé, em mais de 500 anos de exploração excessiva. E com isto, milhares de espécies animais e vegetais sumiram sem sequer serem estudadas. Este mesmo pensamento está levando a Floresta Amazônica para o mesmo caminho, devido à ânsia dos ruralistas em "expandir a fronteira agrícola brasileira" a qualquer custo. Até quando eles vão conseguir plantar, sendo que profundas alterações climáticas já estão em curso no mundo todo, alterando ciclos hidrológicos, prejudicando a terra, etc.? É comprovado que, se chegar a menos de 30% da cobertura original, a Floresta Amazônica não mais se sustentará, entrará num ciclo irreversível de savanização, com queima rápida e incontrolável da floresta, pois a própria massa vegetal é o que mantém as condições ideais de umidade e a temperatura (e, por conseguinte, também os rios) necessárias à sobrevivência da floresta. Já presenciamos uma imensa seca em diversos rios amazônicos no ano de 2005. Isto pode ser um prenúncio de algo pior que pode estar por vir.. Mesmo assim, as leis ambientais não se aplicam no Brasil e nosso governo faz todos os esforços para construir imensas usinas hidrelétricas (ações típicas dos governos militares dos anos 70), que inundarão áreas gigantescas, mudando curso de importantes rios, eliminando populações tradicionais e levando mais hordas de aventureiros para pilhar a floresta em busca de dinheiro fácil e deixando um rastro de miséria e destruição por onde passam. Um ciclo que vem desde os anos 70 e que provou ser insustentável tanto economicamente quanto ecologicamente.

Não se pensa em um planejamento econômico-ecológico, estudando-se as vocações de cada área, bem como um planejamento energético que leve em conta um mix de energias renováveis (solar, eólica, etc.), bioenergias (à base de resíduos vegetais, industriais e urbanos), com gerações localizadas, sem necessidade de grandes e dispendiosas obras em locais distantes dos grandes centros consumidores. Poder-se-ia suprir as necessidades energéticas do país limpando-se nossos aterros sanitários e nossos rios ainda por cima, mas isto é assunto para um outro artigo, focado no tema energético.

Voltando à questão hídrica, é notório que, junto com a destruição das matas, vão-se as águas. As florestas têm papel importante como produtoras e/ou conservadoras dos recursos hídricos. A grande densidade das folhagens evita que as chuvas carreguem detritos que assoreiam os rios (e que os próprios pingos "cavem" as margens), reduzindo a velocidade com que as águas chegam ao solo, mantendo, também, a constância da velocidade dos rios. Rios assoreados, com margens desmatadas e grande volume de detritos alcançam imensas velocidades no fluxo das águas, causando tragédias como a que estamos presenciando no Nordeste nestes dias. A zona da mata nordestina era antiga área de mata-atlântica, desmatada desde o Brasil colonial. Chuvas acima da média (em uma região geralmente seca) aliadas à grandes áreas sem nenhuma cobertura vegetal fizeram as águas carregarem tudo o que existia em seu caminho. Não é a primeira tragédia deste tipo no Brasil e infelizmente não será a última. Já vimos, recentemente, inundações gigantescas em Santa Catarina, em São Paulo, no Rio de Janeiro. E as causas são, em geral, as mesmas : desmatamento, mudança de uso e/ou impermeabilização do solo, mudanças climáticas que aumentam a intensidade das chuvas (causadas também pelo homem, devido à poluição atmosférica), etc.

Regulamentações para proteger o meio-ambiente (e em específico as águas) não faltam. O Brasil promulgou em 1997 a Lei 9433, estabelecendo a Política Nacional de Recursos Hídricos que, junto com as Leis Ambientais, dariam, ao menos no papel, toda a proteção necessária a rios, lagos, etc. Muitos instrumentos valiosos, como a outorga (autorização para captação de determinada quantidade de água ou mesmo para o despejo controlado de dejetos), ainda são pouco utilizados. A cobrança pelo uso da água, prevista na Lei, foi até hoje muito pouco usada. Praticamente apenas as bacias do rio Paraíba do Sul (em SP, RJ e MG) e a do Piracicaba, Jundiaí, Capivari (SP, MG) fazem uso, ainda tímido, deste instrumento. Esta lei prevê que os recursos provenientes da cobrança - que por sinal é irrisória - sejam aplicadas na própria bacia hidrográfica, em investimentos visando protegê-la, melhorá-la ambientalmente. De certa forma, na bacia do Paraíba do Sul, estações de tratamento de esgoto têm sido instaladas, como na cidade de São José dos Campos(SP), por exemplo. É um caminho que deve ser seguido por todos. Vale ressaltar que, na Alemanha, a cobrança pelo uso da água gerou uma onda de investimentos particulares (principalmente industriais) em controle de poluição nos últimos 30 anos que promoveu a limpeza e a devolução da vida a diversos rios já considerados mortos. Esta ação até liberou diversas empresas do pagamento da taxa sobre a água. Isso demonstra que tal "taxa" não deve ter o caráter punitivo de diversos impostos. Ela tem um caráter educativo e reformador. Da mesma forma, seu destino (de ser investida na própria bacia hidrográfica) deve ser respeitada, tomando-se o cuidado de não ocorrer algo muito comum aqui no Brasil: que a taxa vá parar em um "caixa único", tendo suas funções desviadas e deixando-a á mercê da corrupção ou do mera função de cobrir outras despesas governamentais.

De qualquer forma, quem preserva as florestas deve ser recompensado por isso. Deve haver pagamento por "serviços ambientais". Ainda não existe um grande mercado para os bens e serviços ambientais que sirva para determinar o seu valor. Por exemplo, não existe mercado para os serviços intangíveis que a floresta produz (beleza cênica, conservação da biodiversidade, regulação da produção de água, etc). Então como determinar seu valor? Criar soluções alternativas que permitam incorporar o seu valor nas análises econômicas. Algumas iniciativas começam a ser feitas, como programa "Produtores de Água", do governo de São Paulo, que vai remunerar produtores rurais que conservem a mata ciliar, as florestas nas nascentes, etc. É um começo e isso deve ser expandido. Premiar ao invés de punir. Este é o melhor caminho, por engajar toda a sociedade.

Na contramão de tudo isso, os deputados, apoiados pelos ruralistas e por alguns veículos de mídia, tentam desmantelar o Código Florestal, inclusive diminuindo exigências de preservação de mata ciliar (em volta dos rios). Parecem não enxergar todas as tragédias que já aconteceram e continuam acontecendo justamente pela falta que essas matas fazem aos rios. Não dá para entender este país. Deveríamos dar o exemplo. Não interessa se os "países desenvolvidos" desmataram todas as suas reservas. Hoje eles tentam recuperar. E nós queremos acabar com o que temos ainda preservado. Em troca do que?

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

LANÇAMENTO: LIVRO DESTE BLOG !

Caros amigos,
Gostaria de divulgar a vocês que o conteúdo deste blog foi publicado no livro "REFLEXÕES ECOLÓGICAS EM UM MUNDO INSUSTENTÁVEL", conforme foto acima

Os textos foram todos REVISADOS, AMPLIADOS e ainda inserimos TEXTOS INÉDITOS na publicação!

O livro está disponível para compra no site CLUBE DE AUTORES.

Os leitores que quiserem guardar este conteúdo em sua biblioteca ou mesmo dá-lo de presente a amigos, eu ficarei bastante honrado!

A luta do TREES FOREVER por um mundo mais sustentável e por governos mais sérios e atuantes na área ambiental vocês já conhecem. Esta luta é de todos nós e eu agradeço muito por estes quase dois anos de convivência aqui neste ambiente virtual!

Se possível, por favor ajudem-nos a divulgar este livro, enviando o site abaixo a seus amigos, conhecidos, colegas de trabalho, familiares, etc.:

http://clubedeautores.com.br/book/9850--REFLEXOES_ECOLOGICAS

Um forte abraço a todos e muito obrigado!!

Gabriel Bertran

sábado, 28 de novembro de 2009

Os sinais já são visíveis


Pegando um "gancho" no assunto do artigo anterior deste blog, os sinais de inabitabilidade do Planeta Terra, causados pela ação do homem, estão mais visíveis do que nunca. É impossível, a qualquer cético, não percebê-los. Vamos enumerar rapidamente alguns fatos bastante exemplares que foram noticiados durante a última semana, às vésperas que estamos da Conferência do Clima, em Copenhage (Dinamarca), onde algum acordo mundial (extremamente necessário) não sabe-se se vai mesmo ser firmado, devido à resistência de muitos países, que parecem não enxergar a realidade (ou não querem).

Vamos a algumas evidências das mudanças em curso:
- No Recife (Pernambuco, Brasil) a perda de áreas urbanas para o mar já preocupa a população, estimando-se prejuízos imensos aos imóveis construídos junto à orla marítima. Pessoas que vivem há mais tempo na cidade percebem que locais onde antes havia areia, ocupada com quiosques de vendas de água de coco e locais de prática esportiva, hoje são ocupados pelo mar.

- Da mesma forma, no litoral paulista também percebe-se a redução de diversas praias ao longo dos anos (sem retorno à condição anterior, comprovando que não é um fator "cíclico", como muitos dizem). A praia do Gonzaguinha, em São Vicente, está quase desaparecendo. Diversas praias de Ubatuba também sofrem redução bastante significativa. Obviamente que a construção desenfreada de edifícios, portos, estradas,etc. junto à faixa litorânea brasileira altera significativamente a dinâmica da região. Isso aliado ao aumento global do nível dos mares já gera um prejuízo estimado em R$ 207,5 bilhões aos proprietários de imóveis em toda a costa de nosso país.

- Na Suíça um de seus principais atrativos turísticos, que são as estações de esqui nos Alpes, estão ameaçados pela redução gradativa da neve, ano a ano. Estima-se que o país poderá perder US$ 1,6 bilhão por ano se esquiadores passarem a deixar de visitar as montanhas. Até mesmo olimpíadas de inverno estão sendo ameaçadas de continuar sendo realizadas (estações de esqui em outros países, como Canadá e Estados Unidos, sofrem o mesmo efeito). O sinal real disso é que bancos estão negando empréstimos a estações de esqui em pontos mais baixos, mais vulneráveis à falta de neve, assim como patrocinadores de jogos de inverno estão repensando se continuam a investir neles. Será que nem quando o "bolso" das empresas começa a ser afetado pelo aquecimento global, os países não vão pensar em fazer algo para tentar reverter esta tendência?

- Na cidade de Iqaluit, em pleno ártico canadense, habitat há séculos dos povos esquimós da etnia inuíte (famosos por sobrevivência no gelo), o aquecimento global não é um problema para o "futuro da humanidade", segundo conclui a prefeita Elisapee Sheutiapik. No verão do ano passado a temperatura bateu em 26 graus célsius, em pleno ártico, algo nunca visto por lá! Ao mesmo tempo que o degelo libera áreas de terra, que antes não podiam ser habitadas, o aumento do volume das águas inunda diversas áreas e chegou até a derrubar uma ponte. E os lagos congelados por onde podia-se caminhar, antes tão conhecidos dos moradores, não se sabe mais quando nem por quanto tempo estarão em condições de serem atravessados a pé...

- A ilha de Kiribati, no Oceano Pacífico, está ameaçadíssima de desaparecer e o presidente Anote Tong já guarda recursos do país para uma possível realocação de seus 100.000 habitantes em algum outro lugar do planeta, pois cada vez mais a população é ameaçada por tempestades nunca antes vistas e pela invasão das águas do mar sobre suas terras, cuja altitude não ultrapassa os 5 metros sobre o nível do mar. E este é apenas um exemplo, dentre várias ilhas do Pacífico que encontram-se sob a mesma ameaça - detalhe é que são países que emitem pouquíssimo carbono em relação à média mundial, mas são os mais ameaçados.

-A Holanda já investe em casas anfíbias, construídas sobre a água e cuja altura pode variar através de elevadores hidráulicos, pois o país - em grande parte situado abaixo do nível do mar - já não vê os diques de contenção como suficientes. Vislumbra-se a possibilidade de transferir grande parte de sua população para dentro da própria água.

- Na região da Patagônia, no sul da Argentina, tempestades de areia inviabilizam fazendas inteiras. A mudança climática tornou a região, antes fria e seca, um pouco mais quente e úmida após os anos 1970, o que fez com que muitos fazendeiros instalassem-se na região, desmatando as florestas existentes para substituí-las por pastagens e plantações. Depois disso, o nível pluviométrico veio a baixar novamente e a ausência de florestas não conteve a areia, que começou a cair sobre as outrora verdes pastagens e plantações. Sinais de que o desrespeito à natureza traz suas conseqüências.

- Na região do Caribe e proximidades, incluindo Cuba e também o sul dos Estados Unidos o volume de tempestades, que incluem tornados, aumenta sem parar. Entre 1980 e 1990 houve uma média de 10 tempestades tropicais por ano na região. Entre 1998 e 2007 a média passou para 15 por ano, sendo que 8 delas são furacões. Se nem a riquíssima nação norte-americana ainda não teve tempo de adaptar-se a um número tão grande de catástrofes ambientais (vide o Katrina, em New Orleans), imaginem a paupérrima Cuba, que hoje até aceita ajuda financeira e tecnológica de entidades provindas de seu grande "inimigo imperialista", para reparar os danos sem fim que as desordens climáticas causam à população local.

- O sul do Brasil já possui áreas quase inviabilizadas para a moradia em grande parte do ano. Só no Rio Grande do Sul em dois meses e meio, já foram 12 temporais fortes, considerados desastres naturais pela Defesa Civil do Estado. Nos últimos 15 dias, 66 cidades decretaram situação de emergência. E 15,8 mil casas foram danificadas. Quase 5 mil pessoas estão sem ter onde morar e mais de 20 mil pessoas tiveram que deixar as casas em todo o estado.Importante notar que várias destas regiões sofreram com secas nunca vistas há muito pouco tempo. São extremos climáticos que não existiam. Não precisamos nem mencionar Santa Catarina, onde um desastre climático destruiu boa parte do Vale do Itajaí e adjacências há um ano atrás, sendo que este ano as chuvas causaram estragos novamente na mesma região. No oeste e norte do Paraná também são vistos tornados a praticamente todas as semanas, devastando diversas cidades. Estas regiões também sofreram seca recentemente. E importante notar que, nos últimos 50 a 60 anos, estas áreas tiveram suas florestas dizimadas em nome do "desenvolvimento" e da abertura das "fronteiras agrícolas" (sempre este mesmo discurso). Se uma política de preservação tivesse sido implementada, talvez não tivéssemos ventos e inundações tão fortes. A água e o ar deslocam-se com muito mais rapidez sem as barreiras naturais, são leis da física.

- As secas Amazônicas, que assustaram o mundo no ano de 2005, voltaram este ano, contradizendo o mito de que as águas da região são 'infinitas' (ilusão que leva à construção de imensas hidrelétricas por lá) e confirmando o perigo de "savanização" da floresta; que pode ocorrer se as mudanças climáticas e o desmatamento se intensificarem ainda mais;

- O derretimento das geleiras nos países andinos, como Peru, Bolívia, Chile, Argentina; já ameaça o abastecimento de água em várias cidades à beira dos Andes (em muitos locais já não há quase mais gelo algum).

Existem muitos outros casos, além dos citados acima que poderíamos listar aqui. E é importante ressaltar que as emissões de gases estufa aumentaram 62% apenas no Brasil entre 1990 e 2005. A proposta do Brasil em Copenhage não trará obrigatoriedade de corte de emissões, apenas "intenções". Da mesma forma os Estados Unidos quer agir, alegando não saber se o congresso aprovará as reduções. Assim também pensam paises como Australia e Canadá (que nem assinaram Kyoto, em 2007). A China (o maior emissor atual), que ia até boicotar a reunião, agora propõe medidas de eficiência energética (e eles têm condições). Os países pobres alegam que só os ricos precisam reduzir (esquecendo-se que nenhum acordo é possível sem a anuência dos "pobres", pois mais da metade das emissões do Planeta provém deles!). Enfim, quase todos ficam na superficialidade, enquanto os efeitos do aquecimento estão aí visíveis para quem quiser e para quem não quiser enxergá-los.

E olha que mudanças na matriz energética não são impossíveis, pois a tecnologia está aí, e nem tão caras, visto que com a escala reduziriam-se os custos! Só os desertos dos Estados Unidos e da China são suficientes para gerar energia solar e eólica para ambos os países mais poluidores! Se a Alemanha e a Dinamarca, por exemplo, que são países muito menores e com menos sol, estão conseguindo mudar suas matrizes para energias limpas, porque países maiores não conseguem? O Brasil, então, com toda a abundância de vento e sol, quer investir em hidrelétricas que sumbergem florestas (as quais absorvem carbono) e termoelétricas ultrapassadas e poluentes! Ou seja, tudo na contra-mão!

Sabe-se que quaisquer ações que sejam tomadas não terão impactos necessários na diminuição das mudanças climáticas. O que vivemos hoje é conseqüência, muitas vezes, da poluição ocorrida há mais de 50 anos atrás. Portanto estamos atrasados em começar a tomar providências. O Mecanismo de Desenvolvimento Limpo é um caminho, muita coisa já começou a ser feita, mas é preciso ter continuidade. Esperamos que Copenhage nos mostre esta continuidade.


Fonte das Informações: Jornal O Estado de São Paulo, edições entre 25 e 27 de Novembro de 2009

Caros amigos,
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Gabriel Bertran

sábado, 21 de novembro de 2009

A Terra está se tornando inabitável?


Sabe-se que, em termos geológicos, o ser humano está há muito pouco tempo habitando o Planeta Terra. Não vou entrar em detalhes científicos, mas existem estudos comprovando que, proporcionalmente, se a Terra existisse há um ano, nós teríamos chegado aqui mais ou menos às 23h45 do dia 31 de dezembro, ou seja, nos últimos 15 minutos. Os dados são aproximados, mas servem para ilustrar que este pequeno grão de areia solto no espaço, que é nosso planeta, não precisa de nós.

A pergunta é: esta esfera de pedra onde por acaso nós nos instalamos estará se tornando inabitável para nós mesmos, em função das mudanças que nós, em tão pouco tempo, causamos nela? O mais incrível é que grande parte desta destruição deu-se nos últimos 100 anos; apesar de estimar-se que o homem surgiu aqui há mais de 2 milhões de anos. Ou seja, foi um impacto muito rápido o que se deu desde a revolução industrial.

Voltando à pergunta-título deste artigo, ela poderia justificar-se por diversas evidências desta inabitabilidade que vemos pelo planeta afora. Não precisamos ir muito longe. Aqui mesmo, nas regiões Sul e Sudeste do Brasil as tempestades estão tornando-se tão freqüentes que parecem inviabilizar a vida em determinadas cidades e em suas cercanias. Veja-se quantas localidades do Rio Grande do Sul está debaixo d´água semanalmente. No Oeste e Norte do Paraná as tempestades com rajadas de vento (praticamente semanais também) destróem casas, árvores, postes e tudo o que tem pela frente. Em São Paulo as chuvas acima de média constantemente inviabilizam regiões inteiras da metrópole, que ficam embaixo da água. Diversas vezes comentamos aqui a inviabilidade do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, que em vista das condições geográficas e ampla destruição florestal, submerge a qualquer chuva, como vimos em novembro de 2008 e na metade de 2009 também. E não é preciso nem mencionar diversas ilhas do Pacífico que constantemente submergem ou mesmo o furacão Katrina, que há poucos anos atrás destruiu New Orleans, nos Estados Unidos.

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Gabriel Bertran