E o contra-senso é total: em um momento que as tragédias associadas ao Aquecimento Global estão aí, na cara de todos (enchentes ano passado em Santa Catarina e este ano no Nordeste, seca recorde no Sul do país e muitos outros fatores), os governantes, os ruralistas e as televisões parecem associar-se contra a preservação do pouco que resta preservado de nossa natureza. Senão vejamos, resumidamente, algumas ações recentes. Vamos nos concentrar apenas nestes últimos 5 meses ou pouco mais:
- Aprovação do criminoso "código ambiental" em Santa Catarina (deveria se chamar "código de destruição"), o qual permite que as propriedades rurais praticamente não tenham mais mata ciliar (5 metros não é nada), dentre vários outros absurdos;
- A TV Bandeirantes desencadeou campanha deslavada contra as leis ambientais, enganando a população ao dizer que tais leis "travam o desenvolvimento do Brasil";
- Fazem coro junto com este canal de TV o ministro da agricultura Reinhold Stephanes, a ministra da casa civil "mãe do pac" Dilma Roussef, o "ministro americano" Mangabeira Unger e mais uma série de outros funcionários do primeiro escalão do (des)governo, todos contra as leis ambientais e a favor de um "desenvolvimentismo" suicida, típico dos governos militares dos anos 60 e 70;
- O fanfarrão "lulla", o qual se diz presidente, deu voz a esta campanha, com suas blasfêmias de dizer que as obras que "eççe paíz precisa" não vão pra frente por causa do bagre, da perereca, etc., bem como dizer que se existissem leis ambientais nos anos 50, Brasilia não existiria, dentre outras idiotices típicas de quem não estudou e faz discurso sem o menor embasamento;
- Com esse empenho todo, o mesmo presidente decreta lei que permite a destruição de nossas cavernas (o que o país vai ganhar destruindo estes importantes abrigos de biodiversidades quase extintas, bem como de sítios arqueológicos?), autorizando também a "doação" de terras Amazônicas aos mesmos criminosos que destruíram quase 20% da (ainda) maior floresta tropical do mundo (ou seja, ser criminoso neste país realmente continua compensando) e, o pior, aprova leis incentivando a abertura e asfaltamento de estradas nos locais mais remotos e (ainda) preservados da Floresta Amazônica (isto é uma decretação de pena de morte para a floresta);
- Para completar, a bancada ruralista no congresso tenta aprovar lei que dá autonomia a estados e municípios para legislarem da forma que bem entenderem sobre as questões ambientais, o que dá força a absurdos como esta lei catarinense e criará mais uma série de brechas para o desmatamento pelo país afora (como se já não desmatassem sem respeitar nada, imaginem amparados pela lei!).
Eu não estou me lembrando de todos os absurdos dos últimos meses. Sei que, enquanto isso, tenta-se enfraquecer mais um ministro do meio-ambiente, deixando o midiático Carlos Minc ainda mais fraco do que já é em suas ações.
Tem horas que nós, como ambientalistas que somos, perdemos quase todas as esperanças. Foram anos de conquistas de ONGs sérias como SOS Mata Atlântica, Greenpeace, WWF, Ipê, etc., as quais passaram a década de 80 lutando por aprovações de leis que freassem a destruição violenta pela qual a natureza passou nos últimos séculos, e que agora se vêem desmoralizadas por governos e TVs populistas, que de uma hora pra outra resolveram colocar a população contra os ambientalistas, contra a preservação!
O Brasil já é um país cuja população, por natureza, despreza o meio-ambiente. É só ver nas cidades o quanto de árvores são cortadas pelos próprios moradores, sem saber o quanto o verde os beneficia; a imensa impermeabilização das cidades que causa enchentes astronômicas; o descaso com o lixo, que é jogado em ruas, rios e córregos e quase nunca reciclado. Indo para o meio rural, basta ver o desprezo de grande parte dos agricultores pelo "mato", que deve ser cortado e queimado a todo custo. Enfim, práticas que vêm de longe e que mostram que a consciência ambiental tinha que começar na casa, na cabeça de cada um. E o pouco de avanço que podemos ter tido vai por água abaixo com este discurso errôneo de que "preservação ambiental é atraso".
Enquanto isso, num plano macro, não se investe em energias alternativas, como solar e eólica. Só se fomenta inundações dantescas na Floresta Amazônica para construir hidrelétricas (que além de acabarem com a floresta, geram gás metano e levam pobreza e sujeira às regiões próximas); fomenta-se mais usinas termoelétricas, queimando óleo e carvão; investe-se no transporte rodoviário até em áreas preservadas, quando o ferroviário poluiria menos e não impactaria as margens da via; etc.
Como se vê, o movimento ambientalista está sendo sistematicamente atacado e enfraquecido.
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Gabriel Bertran

