sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Folia de Reis no Janeiro mais chuvoso da história



O título deste texto remete ao festejo católico, de origem portuguesa e incorporado ao folclore brasileiro, conhecido como "Folia de Reis" e comemorado no início de janeiro. Mas não me refiro aqui à visita dos três "reis magos" ao menino Jesus recém-nascido, acontecimento que inspirou a festa popular, ainda realizada em algumas cidades brasileiras.

A "folia de reis" a que nos referimos é a folia perpetrada por séculos pelos supostos "reis do Brasil" - os que nos governam, aliados a empresários e movimentos sociais inescrupulosos - os quais em conluio sempre enganaram o povo e devastaram a natureza em nome deste. Tal folia, aliada às mudanças climáticas começa a mostrar suas conseqüências. Só não vê quem não quer.

Coincidentemente ao título da tal festa popular, a cidade de Angra dos Reis - uma das mais antigas do Brasil - supostamente descoberta pelo navegador português André Gonçalves no "Dia de Reis", 06 de Janeiro de 1502 (daí surgiu o seu nome) - foi castigada no reveillon de 2009 para 2010 por uma terrível chuva acima da média, a qual fez diversas encostas deslizarem, matando e desabrigando dezenas de famílias e até mesmo turistas, como foi o caso da Pousada Sankai, na Ilha Grande (conforme a segunda foto acima). Várias estradas foram interrompidas por deslizamentos de terra, dificultando ainda mais o acesso a diversoso lugares. Agora o que se questiona é por que permitiu-se que este volume de construções irregulares - tanto de ricos quanto de pobres, diga-se de passagem - ocupasse as mais diversas áreas montanhosas, as quais deveriam conter apenas a floresta atlântica original, que é o único meio de preservar a integridade das montanhas. Corta-se a base da montanha, desestabiliza-se a parte de cima, que em muitos casos também é utilizada para construir imóveis. O volume de chuvas está acima do normal nos últimos tempos, com isso a terra fica saturada de água, não encontrando sustentação.. e está aí a receita simples para tantos desabamentos.

Aí é que está a "folia". E o pior: não é um problema isolado, restrito apenas a Angra dos Reis e ao estado do Rio de Janeiro. Acostumou-se ao "jeitinho brasileiro", em que as populações invadem terras supostamente "sem dono", muitas vezes incentivadas por falsos corretores imobiliários, que vendem o que não é deles, aliados a líderes religiosos que manipulam a população pobre e ignorante. Tudo isso às vistas das autoridades, que deveriam zelar por estas áreas mas se omitem (muitas vezes em troca propinas) e a receita se completa. Muitos candidatos a cargos públicos aproveitam-se de tal precariedade para falarem em "nome do povo" em troca de votos (mas na hora de uma tragédia como esta nunca aparecem).

A falta de qualquer critério técnico para corte e aterro de encostas, construções precárias, em terrenos ruins, aí tudo vem abaixo. Mortes e prejuízos são computados, e a culpa é de quem? Eu diria que de todos estes agentes envolvidos. O governo pela omissão, o povo pela falta de consciência, os exploradores do povo, que enriquecem às custas desta miséria.. todos são culpados. É uma verdadeira "folia". De "reis" e "súditos". E tal folia ocorre nos subúrbios das grandes cidades, como São Paulo e Rio de Janeiro. E sempre da mesma forma. Sempre sobre áreas de preservação ambiental. Além do que, usa-se o mesmo tipo de "esquema" para construir tanto favelas paupérrimas quanto mansões cinematográficas de empresários e atores de novela. Diversos deles têm casas na "paradisíaca" Angra dos Reis. Inclusive o "rei" governador do Rio de Janeiro, que demorou mais de cinco dias para sequer comentar o ocorrido no reveillon. Mas a maioria destas escandalosas mansões estão tão ilegais quanto o mais simplório barraco. Compra-se ilhas sem que nenhuma autoridade ambiental reclame.

Angra dos Reis tem uma posição geográfica complicadíssima - diga-se de passagem - e corre outros riscos, além destes desabamentos. Uma usina nuclear está instalada ali (em nome do "desenvolvimento"), obra que também trouxe imensas hordas populacionais desde os anos 70. Tal usina repousa sobre num terreno denominado "itaorna", que no conhecimento indígena significa "pedra podre". Mas a sabedoria indígena em nada foi considerada pelos militares desenvolvimentistas (e o desgoverno lulla atual segue a mesma linha, pois quer construir mais usinas destas não só ali, como em outros locais). A questão é que, no caso de um acidente nuclear, a população das imediações praticamente não tem rotas de fuga adequadas. A BR-101 (Rodovia Rio Santos) não passa de um "caminho" de pista única, que mal consegue dar vazão ao fluxo de turistas no verão e que, construída às pressas nos anos 70 e sem considerar o relevo da Serra do Mar, possui centenas de pontos de deslizamento de terra, que impedem freqüentemente seu trânsito, como inclusive ocorreu neste janeiro de 2010. Por isso, falta de planejamento e obras que desconsideram a natureza não é um problema de hoje. É um problema estrutural brasileiro.


São Luiz do Paraitinga, SP
No mesmo princípio deste janeiro, a mesma chuva vitimou uma das mais belas cidades do estado de São Paulo, que não fica muito longe do litoral fluminense: a histórica São Luiz do Paraitinga, localizada no Vale do Paraíba. Como vemos na primeira foto, a outrora mais preservada arquitetura colonial do interior de São Paulo foi dizimada pelas águas. Mais de 70 casarões - incluindo duas belíssimas igrejas - sucumbiram à força da tempestade. Centenas de desabrigados e um patrimônio cultural incalculável foram os saldos desta tragédia.

É sabido que o Vale do Paraíba, que foi uma das primeiras regiões cafeeiras do Brasil, já no século XIX, teve praticamente todas as suas florestas suprimidas. Sendo uma região montanhosa também, isso fez com que um volume de água acima da média trazido pelas chuvas escorresse muito rapidamente para a várzea do Rio Paraitinga (também quase todo assoreado e sem mata ciliar), onde a cidade se encontra. O processo - muito bem descrito pelo Professor Aziz Nacib Ab’Sáber (que inclusive é nativo de São Luiz) no suplemento Aliás, do Estadão de 9 de janeiro - demonstra o quanto a preservação da mata nativa faz falta para todos nós. Isso tudo vem nos demonstrar na prática o quanto a reserva legal é fundamental tanto para propriedades rurais quanto para áreas urbanas! E ainda existe um movimento dos ruralistas, liderado até por canais de TV, para afrouxar essas leis! Enquanto isso muita gente morre e fica desabrigada em função da degradação ambiental. Até quando?

Ainda falando nos tais "reis", nosso rei-maior, o lulla, nem dignou-se a comparecer nem a Angra dos Reis ou São Luiz do Paraitinga, no início de janeiro. Nem sequer mandou alguma missão oficial federal, como tem feito no Haiti, que não sofreu tragédia menor - bem sabemos - com os terremotos (inclusive cogita-se de nosso próprio presidente ir ao Haiti posar de "salvador do povo" por lá). Por aí mostra-se o imenso descaso desde atual (des)governo federal com nosso próprio país, com nosso próprio patrimônio ambiental, cultural e humano. E isto parece que ninguém repara.

São Paulo, SP
Não podemos nos esquecer que este janeiro tem sido o mais chuvoso de todos os tempos na região metropolitana de São Paulo. Até o dia de hoje (29/01/2010) já são contados 38 dias de chuvas quase ininterruptas sobre a capital paulista e região. Há bairros que, durante este período, sequer tiveram as águas de suas ruas esvaziadas. Assemelham-se a rios perenes, como é visto na região do Jardim Pantanal, extremo leste de São Paulo e área inundável da várzea do Rio Tietê. As próprias avenidas Marginais do Rio Tietê há anos não viam enchentes. Coincidência ou não, desde que as obras de ampliação das pistas começaram, já houve mais de 3 alagamentos fortíssimos do ano passado para cá.

São Paulo sofre as conseqüências visíveis do aquecimento global, com aumento de chuvas acima da média, e também com a degradação total do ecossistema do sítio onde a cidade está assentada. São diversos cursos d´água aterrados, impermeabilizados, desviados, enfim, tudo o que não se pode fazer com os rios. Excesso de lixo, devido à falta de educação da população, entupindo bueiros, tubulações, galerias e cursos d´água. Construções sem limites, por toda parte, inclusive em encostas e beiras de represas e rios. Com isso já são 25.000 desabrigados em todo o estado de SP, mais de 65 mortos até agora. E prejuízos a toda a população, que tenta trabalhar e não consegue se deslocar a tempo, muitos nem podem dormir, por não saberem a que horas as águas vão cobrir ou levar tudo.

Tudo isso nos mostra que prevenir as tragédias é muito mais barato que consertá-la. As vidas perdidas ninguém vai trazer de volta às famílias. Já as cidades destruídas, não se sabe quanto custará para resconstruí-las. Mas a questão nem e quanto, mas COMO reconstruir. Estamos construindo errado e em lugares errados. Se isso continuar, o problema só vai se agravar. Mas nossos políticos, sempre preocupados com a "farra" de seus ganhos com tudo isso, não colocam a preservação ambiental como prioridade. No Brasil o que dá voto são estradas, usinas, aterramento de rios, regularização de favelas... tudo o que não precisamos. Com tudo isso as águas continuarão cobrindo tudo... e inviabilizando a vida humana.

Novamente perguntamos: estará a vida humana na terra sendo inviabilizada?

Um comentário:

carlos roberto disse...

E a solução de todos os problemas listados na postagem, infelizmente, estão muito longe da solução.

Enquanto as decisões sobre as questões ambientais estiverem nas mão de políticos, nada, absolutamente nada será feito. Não há interesse. Manter de pé uma árvore não dá voto!

É difícil a luta, GABRIEL, mas precisamos seguir adiante.

Parabéns pelo seu trabalho, pela sua coragem e persistência em denunciar os criminosos do planeta!